História: Sou Voluntário ou Sou Escravo?

Um dia senti um clique, uma sensação misturada de um chamamento estranho.

Essas sensações eram provocadas por amigos de farda azul e vermelha igual a aquela que o meu pai já havia usado em tempos passados.

Por momentos sonhei ver-me vestido de igual forma, sentir o soar da sirene grande da torre, aquela que se vê de longe e se ouve de ainda mais longe, dar outra utilidade à minha vida e ao meu corpo, decidi que queria ajudar os outros, decidi que queria ser Bombeiro Voluntário! A minha mãe sublinhava com frequência que isto seria um acto de loucura, mas eu queria mesmo ser Bombeiro, eu queria dar-lhe mais um motivo de orgulho!
 
Eu só tinha 16 anos, aquela vontade toda cedo me provou que ser Bombeiro não era para qualquer um, era preciso ter uma dose de loucura acima do comum normal, quem não a tinha cedo se apercebeu que sacrifícios destes não eram para todos e saíram pela mesma porta por onde haviam entrado.
 
Enfrentei a vergonha e alistei-me, depois de muitas horas de formação, empenho, suor, noites e dias perdidos eis que me entregaram o que eu mais queria, as minhas primeiras divisas de bombeiro de 3ª fruto da minha entrega voluntária a aprender como poderia ser mais um a ajudar os outros, a ser Bombeiro Voluntário, a ser um elemento do elo do socorro com formação e impressão em qualidade da mesma.
 
Ser bombeiro de 3ª foi apenas o início daquilo que pensava eu ser o fim das necessidades, o decorrer das missões rapidamente me ensinou que não sabia nada, que muito ainda faltava fazer e que a cada missão trazia consigo uma aprendizagem sem fim misturada com uma sensação boa de dever cumprido. Naquele dia em que me vestia de azul havia de salvar alguém ou estar disponível para o fazer, fazê-lo com brio suficiente que orgulhasse os meus colegas, a minha família e todos os que de mim precisavam para o seu socorro.
 
A loucura havia-se agravado, a esta altura já passava mais tempo no quartel do que em casa, prejudicava os estudos, abandonava a escola em socorro dos outros, mais tarde o emprego, a família, os amigos e tudo o que a minha vida me havia trazido. Entreguei-me que nem um louco a esta vida.
 
Os elos Humanos da minha vida olhavam tristes com o meu "até já" cada vez mais repetido a cada dia, na cabeça deles esta habitual expressão podia vir a ser de facto definitiva, não regressar, eles conheciam os riscos, eu também, mas eles viam-nos com outra clareza.
 
No meio desta experiência de voluntário senti uma exigência, eu tinha de dar mais do que aquilo que tinha inicialmente previsto, eu tinha de cumprir regras, eu tinha de despender tempo a todo o custo, eu teria o castigo da vergonha e da disciplina se não o fizesse, eu era voluntário mas era também alvo de exigências de profissional, eu era fruto que dava rendimento a esta cadeia de socorro, eu tinha de transportar, fazer milhares de quilómetros em serviço não urgente para financiar aquilo que eu mais gostava de fazer. Eu era avaliado, alvo de formação intensiva, obrigatória e controlada por horas, ao minuto. Tinha de dar o tempo para salvar os outros mas tinha também de saber que tinha de dar horas mínimas, eu tinha de me propor a objetivos, ser alvo de objetivos de outros e eu tinha de os cumprir para poder seguir em frente, tinha de ser avaliado pelo de cima e avaliar o debaixo, sentia mais dificuldades em lidar com todas aquelas regras do que as que tinha no meu próprio emprego. Eu poderia querer ser algo mais, mas estava dependente da minha entrega a todo aquele “cartapácio” de regras criadas naquele intervalo. Eu dava-lhes já mais do que o tempo que podia, mas "eles" queriam mais.
 
Sentia-me as vezes na obrigação de abandonar as minhas responsabilidades familiares, sociais e laborais em nome deste voluntariado.
 
A crise chegou, aqueles amigos que via de farda azul com 16 anos haviam abandonado os Bombeiros para emigrar, em busca de uma vida melhor, saíram de cara lavada em lágrimas e eu, triste com o seu abandono fui convivente em substituí-los, em fazer ainda mais, mais quilómetros, mais transportes, mais faturas com ou sem número de contribuinte. Vi-me entalado entre guerras com taxistas que eu nem compreendia.
 
No entanto a loucura foi-se tornando em experiência e com ela veio o medo, o respeito, a segurança, a ponderância e uma mistura de maturidade muito superior aos que tinham a minha idade e não eram Bombeiros Voluntários. Eu havia aprendido que não podia ser um escravo da estrutura, que daria apenas o que me era permitido dar e já era muito perto daquilo que outros cidadãos davam ou até mesmo daqueles que sobreviviam às custas do meu trabalho voluntário. Eu fazia uma obrigação que era do Estado, a segurança do povo, era voluntário na intenção e profissional apenas na ação, não na obrigação.
 
Esta maturidade fez-me perceber que muitas coisas que o meu trabalho voluntário provocava eram muito mais do que aquela simples e pura intenção de “ajudar os outros”, eu estava no fundo a ajudar vários de formas bem diferentes daquelas que se encaixavam na minha primeira intenção.
 
Eu estava no fundo a ajudar a alguns a ser ministros e secretários de estado, chefes de gabinete, presidentes de autoridades, a serem comandantes disto e daquilo, presidentes de direção, a ajudar pequenas indústrias e outras bem grandes, outros tantos políticos (que me veem como um trampolim para voos maiores), a dar carros de serviço, telemóveis, viaturas, grandes ordenados e regalias e percebi: “Porra! Estes tipos vivem às custas do meu voluntariado, das minhas boas intenções e nada posso fazer!”
 
Bem esta triste realidade batia-me bem de frente todos os dias enquando acompanhava a atualidade deste mundo de voluntários. Pensei, naquela altura para comigo: "bem, desde que eles façam algo por mim também, não há nada a temer".
 
Anos passaram e o facto de gostar de ler fez-me aperceber que quanto mais alimentava o gosto de aprender e de me instruir mais me despertava este desejo imundo sobre toda esta gente. Eles usavam e aproveitavam-se da minha boa vontade, a olhos vistos. Comecei a ter dúvidas da minha condição, voluntário ou escravo da estrutura?
Eles deixavam-me morrer até se for preciso para levarem os interesses pessoais deles avante. Era muito duro pensar isto, mas a análise dos factos era conclusiva, era uma verdade dogmática.
 
Entregavam-me aos perigos em viaturas defeituosas, em risco iminente de colapso, negavam as suas culpas quando os acidentes aconteciam, assobiavam para o lado e prometiam outros tantos milhões para as pequenas e grandes indústrias que vendiam equipamentos a bombeiros.

Compravam em volume mas não em qualidade, queriam fazer festa rija com muita coisa volumosa, não importa se era adequada ou não. Trocavam cargos, construíam leis que serviam para outros trocarem de cargo, nomeavam com vista a favorecer o amigo de longa data e renegavam todos aqueles que se destacam pelo conhecimento, pelo mérito e pela experiência. Transformavam-nos em bombos da corte, tentavam destruí-los e deixa-los à mercê da sua própria sorte.

 
Até que, o acidente acontecia, morria alguém, eu lamentava, nós lamentávamos, eles lamentavam, davam entrevistas para televisão, prometiam melhorias, fardas topo de gama, carros de valores astronómicos e penteavam-se para mais um direto no jornal da noite, cheio de glamour e luz junto com todos os outros que viviam do meu voluntariado. 
Apagavam-se as luzes das camaras de televisão, decidia-se falar de futebol, de fado, de touradas, de política estado enquanto o Bombeiro que havia morrido.. esse já estava enterrado assim como todas as promessas de mudança feitas a “pés juntos” junto daquela reportagem.
 
Do que fora enterrado sobravam memórias, uma família desolada e abandonada, uns trocos para o pão da manhã e uns filhos sem pai ou mãe para o resto da vida, tudo porque o pai/mãe um dia decidiram ser Bombeiros, ajudar os outros! Esperavam e desesperavam pelos apoios do fundo social, viam-se envolvidos em enredos retirados de novelas de sucesso para receber meia dúzia de euros.

Era nesta altura, acompanhado destas realidades de perto que descobria os “seguros” que me cobriam, os apoios sociais que tinha, as fardas que me queriam continuar a dar (que não me protegiam dos incêndios), os carros que me faziam tripular até que ardessem de velhos ou se sujassem de lágrimas de sangue. Tiravam-me os benefícios na saúde, o benefício da contagem para o tempo de reforma e neste intervalo nomeavam outro comandante qualquer para festejar e decidiam fazer um mega concurso para comprar fardas iguais às que já me tinham vendido para eu jardinar.

 
Prestes a chegar a conclusão que afinal era um voluntário cada vez mais forçado a ser escravo ouvi um soar da sirene em plena hora de almoço com os meus filhos. Era a sirene do meu quartel que gritava a viva voz que alguém precisava de mim! Era como o efeito pólvora, todo eu me tornava num verdadeiro rastilho de combustão rápida, como se na minha ponta estivesse a minha segunda casa. Era o aniversário de um dos meus filhos, ele, que de lágrimas nos olhos me dizia: “Pai não vás, hoje é o dia do meu aniversário”. Louco como sempre lhe respondi: “filho eu venho já”. Corri que nem um maluco, por cima de tudo o que me era possível andar, ainda nem a farda tinha vestida e os riscos começavam já a ser uma realidade.
Vesti-me, com aquela farda de algodão azul e vermelho, com uma meia enfiada na cabeça e as luvas que tinha usado no dia anterior nos trabalhos do jardim lá de casa. Ainda a sirene não havia parado de gritar por auxílio já eu fazia o meu velho veículo com a idade do meu falecido pai gemer até às mais altas rotações. Pelo espelho retrovisor via outros tantos jovens loucos como eu já havia sido um dia, desejosos de ver alguns deles fogo pela primeira vez. Ardia intensamente a mata da minha terra, o povo gritava, alguns criticavam e outros aplaudiam misturados de lágrimas lavadas de desespero. Era apenas mais um dia, em que salvaria outros tantos como já o havia feito antes.
 
Quando me preparava para enfrentar pela cabeça o gigante demolidor de almas e corpos (o fogo) o carro parou, havia partido o chassis cansado de tantas subidas e com ele o motor havia parado, sem volta aparente. O silêncio havia imperado em volta daquela sucata com cara de clássico. O fogo havia-nos envolvido enquanto pensávamos numa solução para salvar a sucata, sucata essa que nos havia levado para aquilo que estava prestes a acontecer. A morte.
 
Um calor inabitual se havia abatido sobre o ar que respirava e de repente o mundo havia parado, tudo demorava mais tempo, cada labareda demorava mais tempo que o habitual a subir às copas das árvores, estava a ver a vida em câmara lenta, nesses momentos todas as coisas boas da minha vida me passavam pelos olhos, no canto dessas lembranças estava o meu filho a dizer: “pai não vás”.
A farda que me haviam dado nos folclores havia começado a arder ainda antes que qualquer chama lhe tivesse tocado, senti-me regado por gasolina. Ela começou a desaparecer assim como toda minha constituição física. O fumo havia feito desaparecer a minha visão, o contacto com os meus colegas de equipa, o fogo havia consumido o meu corpo, os meus colegas e a vida de toda uma equipa e de várias famílias.
 
Morri queimado, abandonei 3 filhos, uma esposa e intenções de uma vida melhor para todos eles. O motivo era o de sempre, alguém não se havia preocupado com a minha segurança antes, em tempo útil, sem folclores. Fui apenas mais um número, mais um que foi, mais um motivo de homenagem, cabelos penteados e colarinhos brancos em mais um telejornal.

Promessas haviam sido feitas, deram-me a medalha de mérito por ter morrido, entregaram-na a um dos meus filhos, o mesmo que havia dito: “Pai, não vás!”.

Palavras sábias as do miúdo.

Fui escravo do meu voluntariado e de intenções de quem nunca soube o que era ser Bombeiro Voluntário!

Ricardo Correia
ricardo@bps.com.pt

Texto original do autor.

Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

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