Opinião: Desabafo de um Bombeiro II

Eram 8h30 e já estava um calor insuportável. Em Espinho o Verão não sabe assim. O céu está encoberto. “É dos incêndios!”
Pesa-me o casaco na carteira, pesa-me na alma por saber de tanta gente que não foi à cama. Eles estão algures a arriscar a vida, nós discutimos à mesa do café sobre “isso”.
Tenho amigos bombeiros, tenho um bombeiro na família. Lembro-me de andar nos carros históricos da corporação, já fiz incursões no quartel, e até foi uma escadas magirus que trouxe o frigorífico cá para casa. Mas nada me consegue fazer compreender a razão de arriscarem a vida. São os super-heróis com quem vamos beber um copo, e que muitas vezes falham porque é “dia de dormir no quartel”. Saem de casa, largam o trabalho, fazem Km’s para apagar um fogo, se preciso. Já me disseram que “quanto mais chamuscados voltarem”, mais felizes se sentem. Gostam do risco, de grandes fogos, de se aventuraram no imprevisto.
Usam botas gastas, capacetes mais que usados, passam horas sem dormir, treinam duro (acreditem que treinam!), dormem num quartel frio para o caso de “haver alguma coisa” (e se não houver, voltam à rotina, no dia seguinte, com a sensação de vazio). Arriscam a vida, e não hesitam quando lhes chega o apelo. Não se importam com nenhum destes pormenores!
Eu não compreendo. Não compreendo o sacrifício, os dias que passam longe da família e dos amigos, as escolham que fazem. Não compreendo como nos queixamos do calor, da cinza nos carros, quando eles estão lá no meio, combativos.
Homens e mulheres que fariam o Super-homem corar de vergonha. Admiro-os, sempre admirei, mas nunca tive coragem de ser um deles. Principalmente porque reconheço a dureza de um trabalho que não se esgota em dois meses intensos de incêndios.
O verão passa, já toda a gente se esqueceu dos que morreram. As cicatrizes ficam lá, para sempre. Mas nós já esgotamos as nossas palavras.
Um dia num quartel não nos chega para perceber essa coragem, essa bondade, esse espírito de entrega. Mas chega para perceber que são heróis a tempo inteiro, o ano inteiro.
Obrigada!
